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domingo, 26 de junho de 2011

Peter Falk (1927 – 2011)

Morreu Peter Falk, o desajeitado detetive Columbo


O sobretudo bege, o velho charuto e o Peugeot 403 conversível saíram de cena. Morreu na madrugada do dia 23 de junho o ator norte-americano Peter Falk, que ficou conhecido no mundo todo por seu papel mais famoso, o detetive Columbo, personagem de uma série de televisão que levava seu nome. Falk, que sofria há anos com o Mal de Alzheimer, teve falência múltipla dos órgãos e faleceu em sua casa, no bairro de Beverly Hills, em Los Angeles (EUA).

Nascido em Nova York em 1927, Falk teve o olho direito removido cirurgicamente aos três anos de idade por conta de um tumor maligno. Sua prótese de vidro, que lhe custou alguns papéis no início da carreira como ator, tornou-se uma das marcas principais de seu personagem mais marcante.

Carismático, dispersivo e perspicaz, o detetive Columbo perseguiu criminosos por 35 anos na televisão americana. O personagem foi introduzido num telefilme de 1968, antes de ganhar sua série nos anos 1970, pela qual passaram diretores do calibre de Steven Spielberg (O Resgate do Soldado Ryan) e Jonathan Demme (O Silêncio dos Inocentes). Seu método de investigação destoava do estilo machão de Kojak, Baretta e dos demais detetives da TV, pois ele parecia relapso, fazendo perguntas tolas e apresentando-se de forma displicente, deselegante até, com seu sobretudo amarrotado. Era infalível. Os criminosos o subestimavam e inevitavelmente caíam na armadilha, entrando em pânico diante da última pergunta, que resolvia o crime pela lógica.

Columbo se tornou tão popular que, após o fim da série, continuou voltando em telefilmes, até 2003. O personagem rendeu à Falk quatro prêmios Emmy (1972, 1975, 1976 e 1990), de um total de dez indicações. Não por acaso, o sobretudo beje virou uma espécie de segunda pele do ator, aparecendo também fora da série, em filmes como O Detetive Desastrado (1978).

Apesar do sucesso de Columbo eclipsar tudo o mais em sua carreira, Peter Falk também obteve sucesso no cinema e no teatro, tendo conquistado duas indicações consecutivas ao Oscar como ator coadjuvante por Assassinato S.A. (1961) e por Dama por um Dia (1962). Falk recebeu ainda um prêmio Tony por seu desempenho na peça O Prisioneiro da Segunda Avenida (1972). Na TV, participou também de dezenas de séries clássicas, como Cidade Nua, Paladino do Oeste, Os Intocáveis, Alfred Hitchcock Suspense, Além da Imaginação e Dr. Kildare.

Formado em Ciências Políticas pela Universidade de Siracusa, antes de virar ator ele trabalhou como funcionário público. Mas o que queria mesmo era ingressar na CIA (agência de inteligência dos EUA), o que seu defeito físico impediu. Em 1957, abandonou o emprego e dedicou-se à dramaturgia, principalmente por amar a comédia. De pequenas peças nos teatros comunitários, passou aos palcos da Broadway e, mais tarde, alcançou Hollywood. Estreou no cinema em 1958 com uma modesta participação em Jornada Tétrica e ultrapassou a marca de 60 filmes na carreira.

Entre as comédias clássicas das quais participou, destacam-se Deu a Louca no Mundo (1963), A Corrida do Século (1965), Os Prazeres de Penélope (1966) e o cultuadíssimo Assassinato por Morte (1975), todas em papel coadjuvante, mas roubando a cena de atores consagrados, como Spencer Tracy, Tony Curtis, Jack Lemmon, David Niven e até Peter Sellers.

Embora tenha se destacado numa época em que ser “ator de TV” era um estigma, teve o privilégio de trabalhar com cineastas consagrados, e estrelou clássicos como Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders, O Jogador, de Robert Altman, e quatro filmes do “pai” do cinema indie John CassavetesOs Maridos (1970), Uma Mulher Sob Influência (1974), Opening Night (1977) e Um Grande Problema (1986). Trabalhou ainda com Sydney Pollack (A Defesa do Castelo), Giuliano Montaldo (A Fúria dos Intocáveis) e William Friedkin (Um Golpe Muito Louco). 

Foi o vovô narrador do cultuado A Princesa Prometida (1987) e participou do primeiro filme do diretor Jon Favreau, Crime Desorganizado (2001). Entre seus últimos filmes estão a animação O Espanta Tubarões (2004), a sci-fi com Nicolas Cage O Vidente (2007) e o desconhecido American Cowslip (2009), com Val Kilmer no elenco.

  
 Peter Falk sofria de Mal de Alzheimer há alguns anos e, em 2007, um dos médicos responsáveis por seu tratamento declarou que o quadro de demência do ator estava tão avançado que ele nem se lembrava de seu passado e da série que o consagrou. Em 2008 foi visto caminhando desorientado pelas ruas de Beverly Hills, o que confirmou o triste estado do astro. Sua filha Catherine Falk tentou ganhar na justiça a custódia do pai, porém Shera Danese, sua segunda esposa, continuou como sua responsável até sua morte.
 

É possível conhecer um pouco mais sobre sua vida através do livro Just One More Thing, biografia lançada pelo ator em 2006. O título refere-se ao bordão usado por Columbo para começar a frase que desvendava o caso.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

A CASA - CRÍTICA


Filme uruguaio assusta com pouco recurso e bela fotografia

Uma mulher e seu pai são contratados por um amigo para limpar uma grande casa abandonada numa fazenda distante. Ao dormir, são atacados por alguma coisa ou alguém. A premissa deste filme independente uruguaio é extremamente simples e não teria chamado a atenção de tanta gente – foi exibido no Festival de Cannes 2010 – não fossem por três observações: foi produzido com apenas US$ 6 mil, uma câmera fotográfica digital e filmado em apenas um único take, sem cortes.

Bem, mais ou menos. Na verdade, apesar de grande parte de suas cenas serem realmente feitas num gigantesco plano-sequência, fica evidente que os momentos em que a câmera entra num ambiente de total escuridão são um subterfúgio para os cortes invisíveis. Esse truque não chega a estragar a sensação de take único e já é usado há bastante tempo (de Alfred Hitchcock em “Festim Diabólico” a Juan José Campanella, naquela cena fantástica em “O Segredo dos Seus Olhos”), mas tira um pouco da mágica do plano-sequência completo, que pode ser visto em “Arca Russa” (de Aleksandr Sokurov) e no nacional “Ainda Orangotangos” (de Gustavo Spolidoro), por exemplo.

Mas é importante observar que o falso plano-sequência não serve meramente como marketing, pois tem uma função narrativa, já que a câmera segue apenas o ponto de vista de Laura (Florencia Colucci) e “A Casa” (La Casa Muda, no original) se trata de um filme de suspense. O diretor uruguaio Gustavo Hernández parte de uma história real, sobre dois corpos encontrados mutilados numa residência na década de 1940, para produzir um longa-metragem visualmente belo e extremamente assustador.

Após chegarem à casa, pai e filha tentam dormir para começar o trabalho de limpeza no dia seguinte, porém ruídos no andar de cima forçam o homem a verificar o que acontece. O sujeito é assassinado de forma brutal e a ameaça ronda a morada num escuro quase absoluto, já que a protagonista possui apenas algumas lâmpadas. E é esse clima de escuridão somado à limitação do ponto de vista representado pela única câmera filmando “sem cortes” que dão ao filme uma angustiante sensação de claustrofobia. Cada parede, cada sombra e cada ruído são ameaçadores, e não saber se o perigo é sobrenatural ou real só piora a situação.

É preciso dar destaque à bela iluminação azulada adotada pelo diretor de fotografia Pedro Luque e aos cuidadosos enquadramentos que, apesar de serem feitos por uma câmera em constante movimento, mostram-se muito bem pensados e ensaiados.
O final reserva a reviravolta que pode dividir opiniões. Aqueles que gostarem, vão argumentar que os truques são normais e aceitáveis, desde que proporcionem a experiência desejada pelo diretor. Os que se decepcionarem, vão dizer que o cineasta trapaceou para contar a história. Ironicamente, é a mesma sensação causada pela questão do plano-sequência.

Hollywood já cresceu os olhos e não perdeu tempo: o remake está pronto e deve estrear este ano, dirigido por Laura Lau e Chris Kentis, dupla responsável pelo suspense Mar Aberto.