quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
O SAMBA QUE MORA EM MIM - CRÍTICA
Não há nomes no documentário O Samba Que Mora Em Mim, que estreia nesta sexta-feira, 11 de fevereiro, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Durante a infância, a diretora Geórgia Guerra-Peixe acompanhou seu pai nos ensaios da escola de samba Estação Primeira de Mangueira e, em seu primeiro longa-metragem, decide subir o Morro para conhecer a vida das pessoas que vivem naquela comunidade.Um a um, personagens e seu cotidiano vão aparecendo na tela, como um mestre de bateria da escola de samba, uma jovem que ganha a vida com seu pequeno comércio, e uma das pessoas mais idosas do local, um senhora com mais de 100 bisnetos. Geórgia faz questão de não legendar os nomes dos participantes, deixando claro que o Morro da Mangueira é o protagonista, e os personagens representam os moradores, cada um com uma história particular.
Sua câmera é intimista, sempre muito próxima das pessoas e de suas ações, principalmente nas atividades corriqueiras como cozinhar, andar pela rua ou simplesmente cantar. Ficam evidente, aqui, a experiência da diretora em publicidade e a bela fotografia de Marcelo Rocha.
No entanto, O Samba Que Mora em Mim peca justamente onde poderia estar sua maior riqueza. A opção de Geórgia em sublinhar as pessoas comuns da comunidade tirou a possibilidade de apresentar personagens históricos ou que realmente teriam alguma boa história para contar. Afinal, estamos falando do morro sede de uma das mais tradicionais escolas de samba do país e local que convive com a violência do tráfico de drogas. Além disso, o documentário se passa no período pré-carnaval, evento que mobiliza toda a comunidade da Mangueira. Porém, a diretora desperdiça a chance de acompanhar as angústias dos participantes nos bastidores da apresentação, contentando-se em registrar uma única cena do desfile, através de uma televisão.
DOM CASMURRO - CRÍTICA
Ó, dúvida cruel
Poucos são os escritores que conseguem realmente transformar um personagem de uma obra literária em tema de discussão por vários e vários anos. Mais precisamente, para a posteridade. Com o romance Dom Casmurro, Machado de Assis criou uma das questões mais misteriosas da literatura: enfim, Capitu traiu ou não traiu Bentinho?
Não se sabe. E nunca se saberá, já que a história é contada através dos olhos de um marido excessivamente ciumento. Bentinho, ao escrever o livro sobre suas memórias, deixou claro a malícia e habilidade com que sua esposa Capitu saía das situações embaraçosas, quando os dois ainda estavam namorando escondidos. José Dias, homem que morava de favor na casa de Bentinho, costumava referir-se sobre o jeito dissimulado de sua futura mulher. Mas Capitu sempre se mostrou carinhosa com seu marido! Então que olhar foi aquele que Capitu lançou para o corpo do finado Escobar? Havia alguma coisa entre eles? Não há como saber, apenas teorizar.
Machado de Assis não deixou pontas soltas em sua misteriosa história. Mas deixou muitas dúvidas e incertezas. Todas as situações e personagens são apresentados de forma dúbia, para que, quando o leitor fechasse o livro, se perguntasse “E agora? Como vou saber?”. Até mesmo a, talvez, maior prova do adultério de Capitu, a extrema semelhança de Ezequiel, o filho de Bentinho, com seu amigo Escobar, possui uma dubiedade que não permite a confirmação de sua autenticidade. Em dado momento da história, o personagem Gurgel chama atenção de Bentinho para a incrível semelhança física entre a mãe de Sancha, e Capitu, apesar de as duas não terem qualquer laço parentesco.
São vários os exemplos em que Assis, propositadamente, coloca essa dúvida na cabeça do leitor. Sempre há uma sugestão, nunca a confirmação. Desta forma, o leitor não sabe se acredita ou não nas palavras do narrador confidente. É impressionante como Machado de Assis tornou uma história tão simples em algo inovador, mas também pertubardor e angustiante. Bentinho, um homem que envelheceu amargurado, decide contar a história de sua vida escrevendo um livro. Nele, conhecemos sua infância ale gre, a paixão adolescente com a amiga Capitu, sua ida ao seminário e sua formação como advogado em São Paulo, até o momento em que se casa com seu amor. Quando seu filho nasce, uma dúvida passa a incomodá-lo. Como pode o rebento parecer tanto com seu melhor amigo? Por ciúmes, acaba mandando sua esposa e filho para a Europa, que morrem por lá.
Jamais vai descobrir a verdade. Nem nós, porque a narração é completamente parcial e pessoal. Esta metalinguagem, aliás, é muito explorada pelo autor, que, a todo momento, conversa com o leitor. Mas é preciso lembrar que o “eu” do livro não pertence a Machado de Assis, mas sim a Bentinho, escritor do livro Dom Casmurro! E a interação autor-leitor causa momentos hilários, como quando, após uma discussão com Capitu, o Bentinho desabafa com o leitor:
Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora este livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes”. (cap. XLV, “Abane a cabeça, leitor”)
Mas, um livro de memórias “escrito” pelo próprio personagem é uma via de mão dupla, já que não apenas os bons pensamentos ficariam expostos: seus defeitos, sua hipocrisia também seria revelada e Machado explorou muito bem essa vertente. Durante todo o livro, Bentinho comete uma série de ações e expõe opiniões que podem fazer o leitor se surpreender, tamanha é a espontaneidade do personagem. Afinal, quantos heróis literários ofereceriam veneno ao próprio filho? Pois o personagem de Machado de Assis só desistiu da ideia no último segundo. Porém, as atitudes negativas de Bentinho com seu filho não param por aí. Anos mais tarde, quando Ezequiel retorna da Europa para visitá-lo, Bentinho diz a si mesmo que gostaria que o garoto tivesse pego lepra. E quando recebe a notícia do fale cimento do jovem, Bentinho não demonstra qualquer tristeza ou desconforto. Pelo contrário:
Mandaram-me ambos os textos, grego e latino, o desenho da sepultura, a conta das despesas e o resto do dinheiro que ele levava; pagaria o triplo para não tornar a vê-lo. (...) Apesar de tudo, jantei bem e fui ao teatro. (cap CXLVI, “Não houve lepra”)
ADEUS, LÊNIN - RESENHA
· Produzida em 2002, a história desse delicioso filme alemão se passa pouco antes da queda do Muro de Berlim. Após ver seu filho participando de protestos contra o regime marxista-leninista, uma professora simpatizante do socialismo tem um ataque cardíaco e entra em coma. Meses depois, após a queda do simbólico muro e o domínio do sistema capitalista, a mulher acorda. Para evitar fortes emoções – o que agravaria sua saúde –, a professora é mantida em um quarto com objetos, produtos e até tele-notícias fictícios, de um mundo no qual o socialismo venceu na Alemanha – tudo produzido pelo seu filho.SIMPSONS - O FILME - RESENHA

Se a idéia é relaxar, nada melhor do que uma boa dose de comédia. E o filme dos personagens amarelos se encarrega perfeitamente do trabalho. Criados pelo cartunista Matt Groening, Os Simpsons estrearam no canal Fox em 1989 retratando com muita ironia e sarcasmo a família padrão norte-americana, e foi sucesso absoluto. Após 18 temporadas ininterruptas, chega aos cinemas de todo o mundo. A história é simples: Homer Simpson comete um pequeno erro que pode acabar com sua cidade, Springfield. A comunidade inteira se revolta com o incidente e tenta matar o patriarca atrapalhado. Com participações especiais dos atores hollywoodianos Tom Hanks e Arnold Schwarzenegger e da banda de rock Green Day, o filme faz chorar de tanto rir e ainda toca na questão ambiental.
PRA FRENTE, BRASIL (parte IV)
Na parte final da análise da retomada do cinema nacional, conheça os brasileiros que estão aparecendo em Hollywood
Fernando Meirelles
Formado em arquitetura, Meirelles entrou para o mundo do audiovisual na década de 1980 com programas culturais e independentes em parceria com Marcelo Tas (CQC). Nos anos 90, criou a agência publicitária O2filmes e passou a dirigir propagandas televisivas. Estreou no cinema em 1998 com O Menino Maluquinho 2 – A Aventura e se aperfeiçoou com Domésticas, no ano 2000. Meirelles entrou para a história do cinema com Cidade de Deus, com quatro indicações ao Oscar (incluindo Melhor Diretor). Com O Jardineiro Fiel, em 2004, provou seu talento. O filme recebeu mais quatro indicações ao Oscar, levando o de Melhor Atriz para Rachel Weisz. Ensaio Sobre a Cegueira, adaptação da obra de José Saramago, dividiu opiniões, mas é inegável que Meirelles conseguiu, pelo menos, não estragar um clássico da literatura mundial.
Walter Salles
Quando lançou Terra Estrangeira em 1995 – em plena crise pós-Collor, Walter Salles teve de enfrentar a desconfiança dos críticos, já que vem de “berço de ouro” (sua família é dona do Unibanco). Porém, quando Central do Brasil foi indicado aos Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz (para Fernanda Montenegro), alguns sapos tiveram de ser engolidos: o rapaz tinha talento, mesmo. Com a moral em alta, tentou repetir o sucesso com Abril Despedaçado (2001), mas foi ignorado. Arriscou-se um pouco mais ao produzir seu primeiro filme internacional: Diários de Motocicleta, de 2004. Com a estrela em ascensão Gael García Bernal no papel do jovem Ernesto Guevara que, futuramente, iria se tornar um tal de Che, o longa ganhou o Oscar de Melhor Canção e firmou o nome do diretor no cinema mundial. Salles tentou conquistar Hollywood com Água Negra (2005), refilmagem de um terror japonês, com Jennifer Connelly, mas quebrou a cara, e o filme afundou nas bilheterias. Para resgatar prestígio, voltou ao Brasil e dirigiu, ao lado de Daniela Thomas, uma família suburbana paulistana em Linha de Passe – com direito a prêmio em Cannes, para a atriz Sandra Corveloni. Walter Salles vai tentar mais uma vez a sorte em Hollywood: o diretor está filmando On The Road, baseado no romance de Jack Kerouac e com a atriz Kristen Stewart (Crepúsculo) como uma das protagonistas.
Rodrigo Santoro
Por ser conhecido como ator de novelas globais, Rodrigo Santoro foi vaiado quando tentou apresentar, no Festival de Brasília, seu primeiro trabalho no cinema, Bicho de Sete Cabeças (2001), da diretora Laís Bodanzky. Ao término da projeção, foi aplaudido de pé e faturou o prêmio de Melhor Ator da competição. Daí para frente, Santoro não parou mais de crescer. Foi elogiado pela sua triste interpretação em Abril Despedaçado, de Walter Salles; surpreendeu público e crítica com sua Lady Di, personagem travesti em Carandiru, de Hector Babenco (2003); em 2004, levou seu único tombo, quando participou de As Panteras – Detonando, ao entrar mudo e sair calado, recebendo maciça crítica nacional. Voltou ao Brasil em 2005 para reconquistar o público na minissérie global Hoje é Dia de Maria, e partiu imediatamente para o Hawaii para participar da terceira temporada de Lost, série de sucesso internacional. No ano passado, surpreendeu o mundo inteiro ao interpretar Xerxes, rei persa no filme 300 (de Zack Snyder). O personagem, careca, bronzeado, seminu e coberto de piercings dourados por todo o corpo poderia cair facilmente no ridículo, mas Santoro criou um semi-deus aceitável.
Santoro conseguiu outros papéis importantes em grandes produções estadunidenses, como em I Love You Phillip Morris, no qual atuou ao lado de Jim Carrey e Ewan McGregor, e em Che, sob direção de Steven Soderbergh, fazendo o papel de Raúl Castro (atualmente no poder em Cuba), irmão de Fidel. Já em Cinturão de Ouro, dividiu a tela com Alice Braga, sob direção de David Mamet.
Alice Braga
Alice Braga nasceu destinada ao sucesso: se não bastasse ser sobrinha da atriz Sônia Braga (que também fez sucesso nos Estados Unidos nos anos 80), a garota estreou nos cinemas justamente sob a direção de Fernando Meirelles, no fenômeno Cidade de Deus. Ou seja, projeção internacional logo no primeiro filme! Enquanto treinava seu inglês para invadir Hollywood, Alice participou do triângulo amoroso entre Lázaro Ramos e Wagner Moura em Cidade Baixa (2005), de Sérgio Machado. Em 2007, perguntou ao Will Smith quem foi Bob Marley no filme Eu Sou a Lenda, blockbuster dirigido por Francis Lawrence. Voltou à batuta de Meirelles em 2008 na pele da Garota de Óculos, na adaptação de Ensaio Sobre a Cegueira, e conseguiu participar de algumas produções medianas em Hollywood: dividiu as telas com Rodrigo Santoro em Cinturão Vermelho; atuou ao lado de Harrison Ford, Sean Penn, Ray Liotta e Ashley Judd, em Território Restrito; e participou de duas ficções científicas: Repo Men: O Resgate de Órgãos, com Jude Law e Forest Whitaker, e Predadores, com Adrien Brody e Laurence Fishburne. Seu mais recente filme é O Ritual, no qual contracena com Anthony Hopkins. Alice também está no elenco de On The Road, dirigido por Walter Salles e protagonizado por Kristen Stewart.PRA FRENTE, BRASIL (parte III)
Na terceira parte da análise sobre o atual cinema nacional, conheça a visão de alguns diretores sobre a própria sociedade
Fazer cinema ou construir uma fossa? Um país tem o direito de gastar milhões de reais fazendo cinema enquanto metade da população não tem saneamento básico? Jorge Furtado levanta questões sociológicas e culturais e analisa o próprio cinema nacional com Saneamento Básico, o Filme (2007). O roteiro: uma cidadezinha gaúcha do interior, carente de recursos básicos de saneamento, recebe dinheiro público, porém para ser gasto em produção cinematográfica. Ao final da projeção, o próprio diretor lembra que num país onde falta tudo, tudo é essencial.
Outras produções também analisam a sociedade brasileira por dentro, caso de Amarelo Manga (2002) e Baixio das Bestas (2006), ambos de Cláudio Assis, e O Céu de Sueli (2006), de Karim Aïnouz – todos se passam na periferia do nordeste brasileiro, fugindo do assunto “sertão”. Tem, também, Carandiru (2003), do argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco, sobre a reconstituição do massacre de 111 detentos realizado pela tropa de choque de São Paulo, no então maior presídio da América Latina.
Apesar de não ser 100% brasileiro, a adaptação de Fernando Meirelles para Ensaio sobre a cegueira (do Nobel de Literatura José Saramago) também pode entrar no grupo de filmes que analisam a sociedade. Através da metáfora sobre a perda da visão por uma cegueira inexplicável, Saramago / Meirelles mostram como as pessoas vão perdendo sua humanidade, situação que alcança clímax nas tão polêmicas cenas dos estupros coletivos. Com elenco estelar (Julianne Moore, Danny Glover, Gael García Bernal, Mark Ruffalo e Alice Braga), o filme tem cenas rodadas em São Paulo, Montevidéu e Montreal.
Selton Mello viveu os últimos dias do brasileiro Jean Charles, morto pela polícia britânica em 2005 ao ser confundido com um terrorista. A direção ficou a cargo do brasileiro radicado em Londres Henrique Goldman. O cinema nacional, como se vê, está discutindo assuntos importantes, como gosta de fazer Cláudio Assis. “O artista tem de mostrar e as pessoas tirarem suas conclusões e reagirem. Para mim, cinema não é diversão, é assunto sério”.
PRA FRENTE, BRASIL (parte II)
Na segunda parte da análise sobre o cinema nacional, o morro carioca invade as telas e o Brasil sente a falta de um pai (ou de um Estado)
As favelas cariocas
Não foi só a ditadura que rendeu bons filmes com questões sociais. Em 2002, Fernando Meirelles tomou de assalto o Festival de Cannes com Cidade de Deus. Baseado no livro homônimo de Paulo Lins, Meirelles mostrou, com uma linguagem publicitária, o nascimento do tráfico de drogas e a batalha entre duas gangues rivais na favela que dá nome ao filme/livro. Conquistou o mundo e recebeu como recompensa quatro indicações ao Oscar (Melhor Diretor, Melhor Montagem, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Fotografia).Após o sucesso comercial de Cidade de Deus, as favelas voltariam a ser assunto em muitos outros filmes. “Tive a sorte de ser o primeiro. Saí na frente, mas quem mora no Rio de Janeiro pensa nisso o dia inteiro. De alguma forma, abri um ciclo de exclusão urbana”, contou Fernando Meirelles na revista Rolling Stone. O cinema voltaria às favelas e ao tráfico de drogas com Quase Dois Irmãos (2004), de Lúcia Murat, Cidade dos Homens (2006), de Paulo Morelli, Era Uma Vez... (2007), dirigido por Breno Silveira e Meu nome não é Johnny (2008), de Mauro Lima, este último com ótima bilheteria.
Mas o mais recente sucesso de público e de crítica – e fenômeno inédito de pirataria antes mesmo de sua estreia –, foi Tropa de Elite, em 2007, que causou polêmica, criou debates, e trouxe a tortura policial de volta aos cinemas brasileiros. “Tenho visto muita gente falando que o Bope é o herói do filme e fico estarrecido com isso”, contou Wagner Moura à revista SET, em outubro de 2008. “Para a população, Tropa de Elite é uma espécie de vingança”, teoriza José Padilha, diretor do longa, sobre o por que da população ter aceitado tão bem o personagem Capitão Nascimento, interpretado por Moura, que combate o tráfico de drogas matando e torturando os bandidos.
“Tropa de Elite tentar humanizar um assassino, tenta justificar o assassinato e a tortura. E contra pobre. Eu não defendo bandido, acho que todos os crimes devem ser julgados e cumpridos, mas aquele filme justifica o crime do Poder, em nome do Estado. Ele (Capitão Nascimento) pensa estar defendendo a sociedade, mas, na verdade, está matando uma parte dela”, protesta Rose Nogueira, membro do grupo Tortura Nunca Mais. Mas, além do debate sobre a tortura dos policiais, o filme discutiu a própria estrutura em que se encontra a Polícia Militar carioca. Logo após assistir a uma cópia do filme entregue por Padilha, o governador Sérgio Cabral ligou para o comandante-geral da PM, coronel Ubiratan Ângelo, e pediu pressa no processo de terceirização da frota de veículos da corporação. A sequência, Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro, quebrou todos os recordes de bilheteria e se tornou o filme nacional mais visto, ultrapassando a marca de 10 milhões de telespectadores.
Última Parada 174, de Bruno Barreto, foi o representante nacional para tentar uma vaga na disputa ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2009. Com algumas liberdades criativas, o longa narra a vida e a morte de Sandro Nascimento, garoto sobrevivente da Chacina da Candelária que, num assalto frustrado a um ônibus, tomou os passageiros como reféns e foi executado pelos soldados do Bope. E quem ainda tiver dúvida quanto à popularidade das favelas nos cinemas, é só conferir O Incrível Hulk (2008), superprodução hollywoodiana sobre o “herói esmeralda”. Bruce Banner, o alter ego do monstro verde, vai para os morros cariocas se esconder do exército estadunidense.
A falta do pai
Já reparou como os filmes de Walter Salles sempre abordam a ausência da figura paterna? Em 1998, com Central do Brasil, o diretor narrou a procura de um garoto por seu pai, depois que sua mãe morre atropelada. Salles volta a tocar no assunto em Água Negra (2005), produção hollywoodiana que traz Jennifer Connelly no papel de uma mulher que se muda com a filha para um apartamento barato e mal-assombrado, e com Linha de Passe, sobre a história de uma família – mulher e cinco filhos – da periferia de São Paulo. Cadê a figura do pai?Paulo Morelli também tocou no tema ao trazer os garotos Acerola e Laranjinha, personagens da série de televisão Cidade dos Homens, discutindo a paternidade nas telas de cinema. Enquanto Laranjinha busca a identidade de seu pai, Acerola precisa aprender a cuidar sozinho de seu filho. Cidade dos Homens, aliás, fala também do tráfico de drogas nas favelas cariocas. Por que a ausência da figura paterna tem sido um tema recorrido nos cinemas? A sensação da família sem pai é a mesma que sente a periferia das grandes cidades, abandonadas pelo Estado, explicou Salles, em entrevista à SET do mês de setembro de 2009: "O Brasil pode se definir por inúmeras vertentes. Uma delas é pela falta crônica do pai, desde a fundação do país".
PRA FRENTE, BRASIL (parte I)
Ao dar prioridade às questões sociais, o cinema nacional recupera fôlego e ganha destaque e respeito no cenário mundial
Entre setembro e outubro de 2008, Linha de Passe (de Walter Salles), Ensaio Sobre a Cegueira (de Fernando Meirelles) e Última Parada 174 (de Bruno Barreto) estrearam nas salas de cinema de todo o Brasil. Cada filme aborda um tema específico – a ausência da figura paterna, a dificuldade de viver em sociedade e a vida nas favelas cariocas, respectivamente, mas há uma questão central que une essas três produções a uma nova tendência do cinema nacional: a utilização de questões sociais como base para as histórias a serem contadas.Assuntos vazios
Nos anos 1970 e 80, a censura impediu que diversos filmes fossem feitos e os que ainda puderam ser exibidos tiveram trechos mutilados, impedindo que os diretores de cinema pudessem expressar suas opiniões ou denunciar algum assunto através da sétima arte. Desta forma, as pornochanchadas (responsáveis por grande parte do preconceito que o próprio brasileiro ainda tem diante das produções nacionais) e as comédias simples dos Trapalhões dominaram os cinemas por 30 anos. Quando Fernando Collor acabou com a Embrafilme, toda produção cinematográfica havia morrido junto. Quem quisesse fazer filmes deveria bancar a própria produção, e a crise cinematográfica só começou a melhorar com a criação da “Lei Rouanet” – Carlota Joaquina, Princesa do Brasil (1995), de Carla Camurati, é considerada um marco inicial da Retomada. Mas o filme que melhor representa a ressurreição do cinema nacional é Central do Brasil (1998), de Walter Salles, com indicações ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz (Fernanda Montenegro).A ditadura em foco
A partir de 1997, uma sequência de bons filmes sobre a ditadura militar (1964-1985) passou pelas salas de cinema em todo território nacional. Só para citar alguns, O que é isso, companheiro? (1997), AI-5 – O Dia que não existiu (2000), Quase Dois Irmãos (2004), Vlado – Trinta anos depois (2005), Zuzu Angel (2006), O ano em que meus pais saíram de férias (2006), Batismo de Sangue, (2007). Pessoas que sofreram na própria pele as torturas cometidas por militares durante a ditadura comemoram o interesse do cinema, caso de Frei Betto, autor do livro Batismo de Sangue, que deu origem ao filme homônimo: ”Quando se faz memória de tempos de atrocidades, evita-se que se repitam. O Brasil, sobretudo as novas gerações, têm o direito de conhecer a verdadeira história do período da ditadura militar para que ela jamais retorne”.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Segurança na Infância - VOTE e contribua!

No Brasil, cerca de 6.000 crianças morrem anualmente vítimas de acidentes domésticos. Esse triste número, no entanto, poderia ser radicalmente menor por meio de medidas simples que resultam na prevenção dos acidentes.
A Editora Abril e a confeção Zig Zig Zaa, com apoio do Instituto Unibanco e do Conselho Federal de Educação Física, criaram um concurso com novas propostas e ideias para a prevenção de acidentes com crianças, e o projeto da minha irmã, a professora Ângela Cristina Jorge Pacheco, ficou entre os 20 melhores – de 1.900 participantes.
Para que a escola na qual ela dá aulas ganhe o prêmio deste concurso – uma lousa digital –, seu projeto precisa de votos. Clique no link abaixo, conheça a proposta da professora Ângela e vote!
Clique aqui: Segurança na Infância
ÔNIBUS 174 - CRÍTICA
Padilha inicia o filme com uma longa tomada aérea da imensidão das favelas nos morros cariocas. Enquanto o helicóptero passeia pelo complexo de barracos que se formaram ao longo dos anos, percebemos que a tomada é uma metáfora visual sobre o tamanho da pobreza e desigualdade social que assola nosso país. Isso fica evidente quando a câmera vai se afastando do subúrbio e dos morros e alcança os enormes prédios da classe média, passando pelos cartões postais que insistem em carimbar o Rio de Janeiro como a “Cidade Maravilhosa”.
Entrecortado por depoimentos de algumas reféns, de policiais que participaram da operação, e de psicólogos e especialistas na área criminal, o documentário procura entender quem era Sandro Nascimento, como foi sua infância, sua adolescência e, finalmente, o que o levou a tomar uma atitude desesperada de sequestrar um ônibus e virar notícia nacional. E uma das mais chocantes revelações é o fato de Sandro ter sido um dos garotos sobreviventes da Chacina da Candelária.
Numa investigação mais profunda, é revelado, também, que Sandro viu sua mãe ser degolada na sua frente. Sem família, foi parar nas ruas. Com diversas passagens pelas vergonhosas instituições socioeducativas, vamos descobrindo o tratamento desumano do qual milhares de jovens passam em todas as regiões do Brasil. Não há dúvidas de que a história de Sandro era uma tragédia anunciada.
Apesar de causar risos quando uma das reféns conta que, durante o sequestro, ela atendeu o celular e avisou ao patrão que chegaria um pouquinho atrasada, pois estava em um assalto, vemos como a situação da violência virou rotina e faz parte do nosso dia-a-dia, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Triste, porém, é ver como a polícia carioca estava despreparada para atuar numa situação que exigia, acima de tudo, calma e comunicação.
E a falta de comunicação é o primeiro dos erros cometidos pelo Bope. Os soldados conversavam através de códigos e sinais, sem utilizar instrumentos e equipamentos. Planejamento também foi outro ponto falho: em uma cena, um homem fura facilmente o bloqueio e passa de bicicleta tranquilamente entre os policiais. “Os cursos, o treinamento, tudo desabou quando Sandro resolveu sair do ônibus”, declara um soldado do Bope, sem se identificar.A conclusão da história, e do filme, causa apreensão, angústia, desapontamento, revolta... é difícil classificar qual sentimento bate mais forte quando descobrimos que uma das balas que matou a refém saiu da arma do policial que tentou atirar em Sandro. Mas isso não é tudo. O sequestrador foi morto dentro do carro do Bope, por estrangulamento. Vemos, então que o ciclo se fechou: Sandro escapou da Candelária, mas morreu nas mãos da Polícia, anos mais tarde. Ao vivo, na tevê.
007 - QUANTUN OF SOLACE - CRÍTICA
Após os ataques de 11 de Setembro, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão e o Iraque atrás de Osama Bin Laden e Saddan Hussein, respectivamente. Sete anos depois, as duas guerras continuam e apenas o ex-presidente iraquiano foi encontrado. Mas os atentados terroristas não influenciaram apenas a política externa americana: o cinema também sofreu consequências e um bom exemplo é a nova franquia 007, reiniciada em 2006 com Cassino RoyPela primeira vez interpretada por um loiro, o filme narra a aventura de estreia de James Bond, agente secreto britânico. Mas o que diferenciou Cassino Royale dos outros 20 (isso mesmo, 20) filmes anteriores foi a postura adotada pelo diretor Martin Campbell: toda a fantasia do universo de James Bond foi substituída pela crueza da realidade. Quando o personagem foi criado, a Guerra Fria estava a todo vapor, o que justificava a presença do herói infalível com suas armas e equipamentos inacreditáveis. Porém, em 2001, as Torres Gêmeas caíram e a América acordou.
E a indústria cultural (o cinema principalmente) sentiu a necessidade de mudanças. O charme do antigo James Bond foi substituído pela cruza do novo agente secreto. Nada de parafernálias, exceto sua boa e velha arma de fogo e um Aston Martin para perseguir os inimigos. Quantum of Solace começa exatamente onde terminou Cassino Royale (situação inédita na franquia), com o 007 em busca dos assassinos de Vesper, sua única paixão. As investigações apontam para um eco-empresário – outro paralelo com a realidade, já que o meio ambiente é o assunto da moda e os megaempresários tentam “vender” uma postura ecológica. O vilão também difere de todos os outros da franquia: não é esquizofrênico nem tem alguma característica física marcante, como boca de ferro, olhos que lacrimejam sangue etc: sua vilania em ganhar dinheiro com a desgraça alheia.
Com esses elementos, o diretor Marc Forster mostra que até mesmo James Bond teve que se adaptar aos nossos dias.
A PESSOA É PARA O QUE NASCE - CRÍTICA
Dirigido por Roberto Berlier, A pessoa é para o que nasce, retrata a vida de três irmãs cegas que ganham o seu sustento cantando nas ruas de Campina Grande. Mais do que uma observação sobre as dificuldades na rotina das mulheres que não enxergam, o filme procura mostrar que é possível manter o bom humor e uma vida menos infeliz.O documentário começa com a longa cena em que Poroca, uma das irmãs, tenta por diversas vezes colocar o vestido, mas não consegue encontrar o lado certo da roupa. “Eita ferro...” e “Ô, meu deus!” são as expressões repetidas diversas vezes durante o filme, quase como um mantra. Maroca, Porocá e Indaiá (ou Regina, Maria e Conceição) passam o dia todo nas ruas de Campina Grande fazendo rimas e canções em troca de algumas moedas, enquanto os outros irmãos, saudáveis, não trabalham: “Trabalha o feio para o bonito comer”, diz, revoltada, uma das irmãs.
O que mais impressiona ao longo do filme é a quantidade de vezes que as irmãs usam o verbo “ver”, como se, de alguma forma, enxergassem o mundo. “Puxa, você está aí? Eu não tinha visto” ou “Vamos para São Paulo para ver os paulistas” são alguns dos exemplos. Genial, entretanto é o momento em que Maroca descreve seu grande amor: enquanto ela vai ditando os aspectos físicos do homem, a tela fica toda escura. Desta forma, temos o mesmo ponto de vista da protagonista.
Outro destaque do filme é a cumplicidade que o diretor Roberto conseguiu arrancar das três irmãs. Devido ao longo tempo de duração de gravação (as filmagens começaram em 1998 e só foram terminar em 2004), as “Ceguinhas de Campina Grande” passaram uma intimidade e naturalidade que causa admiração ao telespectador. “Eu nunca imaginei que seria estrela do cinema”, se espanta Maroca. Pois é ela quem causa risos e, mais tarde, um pouco de tristeza quando revela que está apaixonada pelo diretor Roberto Berlier.
Quando as legendas sobem, ao final da projeção, elas já conheceram Gilberto Gil, fizeram shows em diversas regiões do Brasil e ganharam um dinheirinho para reformar a casa. E pedem para os telespectadores comprarem seu CD, afinal, o filme acabou e chegou a hora de voltar às ruas cantar e pedir esmolas.
SOU FEIA MAS TO NA MODA - CRÍTICA
Em forma de desenho animado, com traço do cartunista Allan Sieber, a abertura do documentário Sou feia mas tô na moda, sobre o funk carioca, apresenta uma imagem simbólica: um casal lindo e loiro curte a vida na praia quando aparece uma máquina sonora em forma de “popozuda”, invade a areia e o esmaga. Uma ilustração bem vívida da força que alcançou o fenômeno musical analisado pela diretora Denise Garcia.
Passando sua câmera rapidamente pela influência do Miami Bass, dos anos 1980, e pelos polêmicos bailes Lado A / Lado B – em que jovens se dividiam em grupos para trocarem socos –, Denise põe em foco os protagonistas da cena atual (DJ Marlboro, Tati Quebra-Barraco e Deise da Injeção, entre outros) e investiga como o funk usou a sensualidade para sair da decadência em que se encontrava. Através das letras sexualmente explícitas cantadas por mulheres, por exemplo, descobre-se uma reafirmação do feminismo, com a qual as garotas do subúrbio deixam de ser objetos sexuais, abandonam a submissão em que se encontravam e impõem sua posição social.
E, antes que as bandeiras moralistas se levantem contra as letras e danças apelativas, os músicos e moradores dos morros cariocas criticam a hipocrisia da sociedade, que aceita as novelas com sexo em horário nobre e o Carnaval para exportação, com dançarinas nuas em carros alegóricos. Mas o documentário acerta mesmo em cheio quando um dos entrevistados lembra que a juventude que hoje canta e dança o funk era a criança que assistia ao Faustão apresentar, em seu programa dominical, os concursos de loira e morena do Tchan!, e aprendeu a ralar na boquinha da garrafa...
BESOURO - RESENHA
A lenda dizia que o maior capoeirista de todos os tempos fugia de seus inimigos voando, transformado num besouro. Encantado com o livro “Feijoada no Paraíso” (de Marco Carvalho), o diretor João Daniel Tikhomiroff criou “Besouro”, filme de ação com lutas no estilo “O Tigre e o Dragão”, cujo cenário é o Recôncavo Baiano dos anos 1920, quando o pensamento escravocrata ainda existia na região. Com a ajuda dos Orixás, Besouro usa a capoeira para combater os fazendeiros escravagistas e defender seu povo.
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