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terça-feira, 13 de março de 2012

O Espião que Sabia Demais materializa o anti-James Bond


Quando lançou seus livros de espionagem, ainda na década de 1960, John le Carré declarou que suas obras seguiam o caminho oposto ao dos romances de Ian Fleming, criador do herói britânico 007.

Ninguém discute o grau de fantasia sugerido pelos livros e, principalmente, pelos filmes de James Bond sobre o mundo da espionagem, com suas armas mirabolantes, ternos refinados, supervilões e belas mulheres a cada esquina. Mas dá para imaginar a frustração de le Carré ao assistir a essas produções – afinal, ele mesmo foi um agente da MI-5, a inteligência britânica, e sabe muito bem que seria mais fácil encontrar um espião desabafando com seu terapeuta do que saltando de paraquedas com um rifle na mão ou uma caneta explosiva no bolso.

É nesse tom melancólico e realista que se encontra o grande trunfo de “O Espião Que Sabia Demais”, adaptação da obra de le Carré pelo cineasta sueco Tomas Alfredson (“Deixe Ela Entrar”). Com roteiro de Peter Straughan (“Os Homens que Encaravam Cabras”) e Bridget O’Connor (que faleceu em 2010), a adaptação conta a história do agente George Smiley (Gary Oldman), que recebe a missão de descobrir qual de seus colegas do mais alto posto do Serviço Secreto Inglês está trabalhando com os soviéticos durante a Guerra Fria.

Como se vê, é uma sinopse simples, presente em todos os filmes da franquia “Missão Impossível”. Mas “O Espião Que Sabia Demais” retira todo o glamour e ação resfolegante da espionagem, substituindo o charme de um Ethan Hunt por velhos cansados e decepcionados com suas próprias vidas.
Para construir esse universo, Alfredson criou um clima de opressão e claustrofobia, apoiado pela fotografia escura de Hoyte van Hoytema, e ofereceu uma história entrecortada por flashbacks, numa montagem que entrega aos poucos quem são os personagens e para onde eles poderiam ir – como se o próprio espectador estivesse investigando o caso.

Apesar de o diretor ficar conhecido apenas recentemente, ele já é um veterano na direção de filmes e séries na televisão da Suécia e sua experiência fica evidente pela composição dos quadros e movimentos de câmera: os primeiros minutos que apresentam Smiley, por exemplo, se resumem a acompanhá-lo caminhar calmamente pelas ruas de Londres – sem falas. É curioso notar que ele está cercado de grades por onde passa, como se sua rotina o trancafiasse.

Na trama, os espiões são meros funcionários públicos que precisam brigar com os chefes para conseguir financiamento para as missões. Seu entretenimento não é escalar montanhas, mas assistir a TV. O que o incomoda não são os ladrões de seu carro conversível, mas uma mosca dentro do veículo. E ele não conquista mulheres – aliás, sua esposa o deixou.

São detalhes que parecem desnecessários e até supérfluos, mas compõem um quadro complexo, com personagens cheios de facetas (ora suspeitos, ora amigáveis), interpretados por um elenco inglês formidável: além de Oldman, John Hurt, Colin Firth, Toby Jones, Mark Strong, David Dencik, Ciarán Hinds, Benedict Cumberbatch e Tom Hardy, entre outros.

Mas o show é mesmo de Oldman, inspirado como o agente à beira da aposentadoria. Seja no tom de voz, seja na forma de se sentar ou analisar as situações, o ator entrega uma atuação perfeita (como na cena em que rememora o encontro de anos atrás com seu grande inimigo, Karla, líder da KGB), apoiado por ótimas falas – como na conversa com uma ex-espiã (Kathy Burke) sobre a época da 2ª Guerra Mundial, quando a Inglaterra ainda tinha alguma relevância política no mundo.
Curiosamente, a feição melancólica de George Smiley até combinaria com as caras fechadas dos três JBs que dominaram a espionagem no mundo do entretenimento na última década: James Bond (Daniel Craig), Jason Bourne (Matt Damon) e Jack Bauer (Kiefer Sutherland). Mas o discretíssimo sorriso de Gary Oldman no final do filme, ao som de “La Mer”, mostra qual deles poderia, de fato, existir no mundo real.

domingo, 2 de outubro de 2011

CONTRA O TEMPO - Crítica


Depois de uma espetacular estreia em 2009 com “Lunar”, a expectativa sobre o segundo filme de Duncan Jones era grande, mas o resultado é decepcionante. Com um orçamento bem maior do que o primeiro filme (US$ 32 milhões) e um bom elenco em mãos (Jake Gyllenhaal, Vera Farmiga, Jeffrey Wright, Michelle Monaghan), o jovem diretor erra no tom e acaba transformando uma promissora ficção científica num fraco longa-metragem de ação.

Gyllenhall interpreta um piloto de helicóptero do exército americano que acorda durante uma viagem de trem e descobre estar no corpo de outra pessoa. Ele não reconhece seu próprio rosto no espelho e a bela mulher à sua frente (Michelle) insiste em chamá-lo por um nome que não é o seu. Minutos depois, uma bomba no veículo explode e, em vez de morrer, ele vai parar numa espécie de cápsula, onde descobre estar participando de um projeto militar chamado “Código Fonte” (“Source Code”, título original do filme), que permite à mente humana “voltar” no tempo e viver os oito minutos finais de alguém que já morreu.

O protagonista descobre que o trem no qual ele estava foi explodido na mesma manhã e sua missão é desvendar qual passageiro do trem é o terrorista, nem que para isso ele precise repetir sua viagem metafísica por várias e várias vezes. E é aqui que “Contra o Tempo” escorrega feio por uma série de razões. A primeira é, obviamente, pela ideia batida da história do personagem que vive repetidas situações por inúmeras vezes – de “Feitiço do Tempo” a “Déjà Vu”, o tema já foi explorado e com resultados variados.

Histórias sobre viagem no tempo e/ou realidades alternativas exigem um cuidado milimétrico para não deixar furos, e o roteiro de Ben Ripley (“A Experiência 3” e 4) não escapa das armadilhas – basta o espectador começar a fazer perguntas, do tipo “e o que acontece com o homem que tem o corpo tomado por Gyllenhall?

Mas, talvez, o maior pecado de “Contra o Tempo” esteja justamente no que deveria ser seu maior trunfo: a ideia da repetição das situações. Jones até consegue impedir o marasmo ao reprisar as mesmas cenas com detalhes diferentes, mas o clima de tensão vira fumaça, afinal se o protagonista não consegue concluir seu objetivo uma vez, basta ele voltar novamente, e novamente, e novamente. Desta forma, por que o espectador precisa se preocupar com a história ou com o que pode acontecer com os personagens, se há a garantia de retorno? (diferente, por exemplo, do que acontece em “A Origem”, o que denota a diferença de qualidade de texto de Christopher Nolan).

Se há um ponto positivo, está nas atuações, com destaque ao trabalho de Vera Farmiga, que consegue transmitir emoções sinceras mesmo contracenando com uma tela de computador. Jeffrey Wright também funciona como o cientista militar meio louco/ meio gênio e Gyllenhaal é eficiente como sempre.

A decepção, mesmo, fica com o trabalho de Jones. “Contra o Tempo” mais parece um exorcismo ao fantasma do 11 de Setembro, com sua proposta de evitar novos ataques terroristas – o personagem de Wright comenta que o experimento é a nova arma na Guerra ao Terror, ainda que as questões éticas escorram pelo ralo (com consequências, vale lembrar, já discutidas bem antes, em “Minority Report”).

Jones poderia ter aprofundado seu filme na questão existencialista ou na opressão do sistema (justamente como aconteceu em “Lunar”), mas o filho do cantor David Bowie investiu num romance sem sentido (tudo bem que Michelle Monaghan é linda, mas peraí...) e num fraco filme de ação, com a típica correria desesperada onde cada minuto importa para evitar um ataque terrorista. Aliás, Jack Bauer já fez isso por sete anos.