domingo, 18 de setembro de 2011

Hollywood após 11 de Setembro


           Como Hollywood reagiu ao 11 de Setembro?

           É quase impossível ver as imagens dos aviões batendo contra as Torres Gêmeas do World Trade Center (WTC) em 11 de setembro de 2001, os prédios caindo e as pessoas nas ruas correndo desesperadamente, e não pensar num filme hollywoodiano. Vimos cenas semelhantes em centenas de produções anteriores, como Armaggedon, Independence Day e afins, nos quais a Casa Branca, a Estátua da Liberdade, as próprias torres do WTC eram destruídas seja por explosões, asteroides ou monstros. Mas aquilo tudo foi real e, pior, televisionado ao vivo. E foi mais terrível que qualquer roteiro que Hollywood pudesse conceber. Além das questões sobre quem seriam os responsáveis e de que forma o governo norte-americano responderia aos atentados, uma pergunta tomou conta de milhões de pessoas no mundo todo: como Hollywood reagiria ao 11 de Setembro de 2001?

  A resposta foi imediata. Em homenagem e respeito às vítimas dos ataques, nenhuma menção ao WTC seria feita pelos próximos meses. Desta forma, foi para o limbo o teaser trailer do primeiro filme do Homem-Aranha, que estava sendo exibido nas salas de cinemas: no vídeo, o herói pendurava numa teia gigante entre as Torres Gêmeas um helicóptero pilotado por assaltantes.


Da mesma forma, diversos filmes que estavam em produção sofreram modificações ou tiveram suas estreias adiadas por trazer algum conteúdo que pudesse remeter à recente tragédia. Assim, Efeito Colateral e Grande Problema chegaram aos cinemas muito depois do previsto por abordarem o terrorismo em sua história. Má Companhia e Homens de Preto II tiveram cenas refilmadas já que traziam o WTC como referência e até Gangues de Nova York precisou esperar alguns meses para estrear já que mostrava batalhas sangrentas no coração da Grande Maçã. Atitudes que, embora possam ser até questionáveis, são compreensivas, já que tratava-se de uma grande tragédia da história recente americana, mas houve também casos de exagero, como um grupo radical que exigia a mudança do título de As Duas Torres, segundo filme da trilogia de O Senhor dos Anéis. Apesar de o livro ter sido criado na década de 1940 e se referir ao mundo fantástico criado por J.R.R.Tolkien, alegava-se que o nome causaria constrangimentos às famílias das vítimas. 
Mas essas foram reações emergenciais, surgidas no calor da tragédia. As dúvidas pairavam sobre o que viria a seguir. A indústria se posicionaria de forma patriótica? Teria coragem de produzir filmes que tratassem do assunto diretamente ou faria abordagens subjetivas? Usaria os terroristas árabes/muçulmanos como inimigos ou criticaria a Casa Branca? Agora que se completa uma década do 11/09, já é possível verificar quais foram os caminhos adotados por Hollywood para abordar esse fato histórico. E percebe-se que Hollywood foi para todas as direções.
Quando se fala em filmes sobre os atentados terroristas de 2001, o grande público provavelmente remeterá às produções As Torres Gêmeas (World Trade Center) de Oliver Stone e com Nicolas Cage no elenco, ou então Vôo United 93 (United 93), de Paul Greengrass, sobre os últimos minutos do avião derrubado pelos próprios passageiros, que conseguiram impedir que a aeronave atingisse, imagina-se, a Casa Branca. Mas esses filmes chegaram aos cinemas apenas em 2006, cinco anos após a tragédia. Outra produção que ganhou destaque foi o documentário vencedor do Oscar 2009 O Equilibrista (Man on Wire), dirigido por James Marsh, sobre a travessia em cima de um cabo entre os dois prédios do WTC, realizada por Philippe Petit em 1974. Apesar de resgatar as imagens das Torres Gêmeas, O Equilibrista foi saudado pela nostalgia – o feito do francês aconteceu com os prédios recém-construídos – e não por uma caráter político.
Uma das primeiras produções de grande porte a abordar o tema de forma mais séria foi o filme 11 de Setembro (11'09''01), produzido por Alain Brigand em 2002 e que reúne 11 curtas-metragens com duração exata de 11 minutos, 9 segundos e 1 frame. Participaram do projeto cineastas consagrados e de diversas nacionalidades, como inglês Ken Loach (Ventos da Liberdade), o mexicano Alejandro González Iñarritú (Babel), o bósnio Danis Tanovic (Terra de Ninguém), a indiana Mira Nair (Casamento Indiano) e o americano Sean Penn (Na Natureza Selvagem). A obra chamou a atenção por trazer uma visão global da tragédia e pela liberdade com que os diretores puderam tratar do tema, o que resultou em trabalhos ousados (como o do segmento “Estados Unidos”, no qual a queda das torres traz esperança a um senhor de idade), ácidos (caso do episódio do egípcio Youssef Chahine, que culpa o governo norte-americano pela violência no Oriente Médio) e críticos (como o curta dirigido por Ken Loach, que lembra que 11 de setembro também foi a data do golpe de estado no Chile, em 1973, que contou com o apoio da Casa Branca).
Sempre polêmico e politizado, Spike Lee (Faça a Coisa Certa, Malcom X) foi o primeiro a mostrar numa grande produção de Hollywood o “Marco Zero”, o local de destroços onde antes estavam os prédios do WTC, no filme A Última Hora, de 2002. O vazio deixado pelas Torres Gêmeas, substituídas por canhões de luz, e a sensação de depressão e angústia causada pelo dos destroços amontoados servem como metáfora ao estado de espírito de Monty Brogan (Edward Norton), sujeito que precisa aproveitar as últimas horas antes de se apresentar à penitenciária para cumprir sete anos de prisão por tráfico de drogas.
Apesar de ser franco-canadense, As Invasões Bárbaras (2003) também merece ser citado, já que foi pioneiro em mostrar as imagens dos atentados. Dirigida por Denys Arcand, a produção, vencedora do Oscar 2004 de Melhor Filme Estrangeiro, é a continuação de O Declínio do Império Americano, de 1986. Apesar dos títulos, ambos os filmes não são, num primeiro plano, politizados, já que trazem em seu núcleo membros da classe média discutindo sobre sexo. Mas é óbvio que os filmes permitem releituras nas entrelinhas e fazem um paralelo entre a ascensão e queda do império romano e a situação dos Estados Unidos. Se na primeira produção o diretor dava indícios de que a América estava em decadência, Arcand sugere que o 11/09 corresponde às “invasões bárbaras” que ruíram Roma.
Mas foi a partir de 2004 que as produções norte-americanas começaram a refletir as consequências políticas e sociais dos atentados terroristas e a obra que chamou mais atenção naquele ano foi Fahrenheit 11 de Setembro (Fahrenheit 9/11), documentário do sempre polêmico Michael Moore. Um ano antes ele já havia sido aplaudido e vaiado em seu discurso no Oscar 2003 ao levar o prêmio por Tiros em Columbine – a Guerra do Iraque havia começado dias depois do evento. O filme não cumpriu seu objetivo principal (impedir a reeleição de Bush), mas dividiu a opinião do público, fez perguntas que a imprensa americana ignorou e ainda levou a Palma de Ouro – Quentin Tarantino, presidente do júri, jurou que a premiação foi por motivos artísticos, não políticos.
Crash – No Limite (Crash) também estreou em 2004 e levou o Oscar de Melhor Filme no ano seguinte. Na obra, Paul Haggis expôs os preconceitos raciais e a xenofobia que passou a dominar grande parte da população contra povos de origem árabe. Numa cena, um senhor iraniano é chamado de “Osama” por um vendedor de armas e vândalos arrombaram e destruíram sua loja, e deixarem pichações racistas. “Vejam o que escreveram, pensam que somos árabes. Desde quando persa é árabe?”, se pergunta sua mulher, inconformada. Em outro momento, o político interpretado por Brendan Fraser quase surta ao saber que iria premiar um iraquiano chamado Saddam.
A questão xenófoba também foi explorada por Wim Wenders em Medo e Obsessão (Land of Plenty), sobre um veterano de guerra (John Diehl) que fica paranoico e acredita que há terroristas infiltrados na população. É o estado de medo que passou a tomar conta da sociedade – um sentimento que também foi alimentado por Bush com sua campanha midiática sobre a “Guerra ao Terror”. M. Night Shyamalan realizou uma bela alegoria sobre essa sensação em A Vila (The Village), sobre um povoado que vive com medo de supostos monstros que rodeiam a floresta. Mas nem tudo foi levado tão a sério: Trey Parker e Matt Stone, criadores do infame desenho South Park, realizaram a paródia Team America - Detonando o Mundo (Team America: World Police), uma tiração de sarro sobre a obsessão americana de ser polícia do mundo. No filme, os personagens – interpretados por marionetes – são agentes que acabam causando mais destruição que os próprios terroristas que eles caçam.
De certa forma, esses filmes de 2004 representam muito do que virá a acontecer nos anos seguintes: produções que tratam do assunto de forma direta serão elogiados por grande parte da crítica, mas ignorados pelo público americano, que buscará filmes escapistas. Com a moral destruída junto com as torres, a Casa Branca promoveu uma nova onda de orgulho e patriotismo e as ruas de Nova York ficaram forradas de bandeiras dos Estados Unidos. Falar mal do próprio governo estava fora de cogitação pelos próximos anos e longas-metragens que tocaram no assunto não obtiveram retorno nas bilheterias – mesmo que fossem estrelados por nomes fortes na indústria.
Foi o destino de filmes como Syriana - A Indústria do Petróleo (Syriana), que deu o Oscar de Melhor Ator coadjuvante a George Clooney; No Vale das Sombras (In the Valley of Elah), com Charlize Theron e Tommy Lee Jones; Reine Sobre Mim (Reign Over Me), com Adam Sandler e Don Cheadle; Leões e Cordeiros (Lions for Lambs), com Tom Cruise e Meryl Streep; Rede de Mentiras (Body of Lies), com Leonardo DiCaprio e Russell Crowe; e Zona Verde (Green Zone), com Matt Damon e direção de Paul Greengrass, dupla que havia feito sucesso anteriormente com os filmes do agente desmemoriado Jason Bourne. Esses são apenas alguns nomes de uma lista enorme de filmes cujo conteúdo o público preferiu passar longe.
O que muitos diretores fizeram foi analisar e se inspirar nas consequências pós-11/09 de forma sutil. Em 2005, o rei do entretenimento hollywoodiano Steven Spielberg realiza o remake de Guerra dos Mundos (War of the Worlds) e, diferente do que foi visto em filmes-catástrofes anteriores (como Independence Day, que também trazia aliens ameaçadores), aqui não há espaço para heroísmo. Quando as naves começam a atirar nas pessoas, a reação causa uma incômoda lembrança da correria dos cidadãos pelas ruas de Nova York no momento da queda das torres do WTC. Em vez de lutar, o personagem interpretado por Tom Cruise se esconde com sua família, afinal não entende de onde vem a ameaça. Spielberg lembra que o fim do mundo não é legal e a ameaça não será derrotada com o presidente dos EUA pilotando um caça.
Cloverfield – Monstro, dirigido por Matt Reeves e produzido por J. J. Abrams também resgata o pânico das pessoas pelas ruas de NY. A metáfora, aqui, é ainda mais óbvia, com a cabeça da Estátua da Liberdade sendo decepada e as pessoas filmando tudo com os celulares. Ainda que de forma vazia, Lanterna Verde (Green Lantern) também usa a cena da correria numa metrópole quando o vilão Parallax vem à Terra. Esse tipo de exorcismo não é nenhuma novidade, já que Godzilla aterroriza os japoneses há décadas.
O medo, aliás, serviu de tema em diversas produções e é impossível não associar o fenômeno ao ambiente norte-americano pós-11/09. Em Batman Begins, de Christopher Nolan, a palavra aparece mais de 30 vezes nas falas dos personagens, e é a arma de Ra’s al Ghul para destruir Gotham e a inspiração para Bruce Wayne tornar-se um vigilante. É possível, inclusive, encontrar metáforas nada sutis, como o pó branco utilizado pelo Espantalho para aterrorizar as vítimas (após 11 de Setembro, diversas pessoas morreram ao receber envelopes contaminados com a bactéria causadora do antraz) e a cena final, na qual o objetivo de Ra’s al Ghul é arremessar o trem contra a Torre Wayne. O Coringa, na sequência O Cavaleiro das Trevas, age como um terrorista, causando diversas explosões pela cidade e criando o pânico na população.
O medo também foi tema de V de Vingança (V for Vendetta), adaptação da HQ escrita por Alan Moore dirigida por James McTeigue e produzida pelos irmãos Wachowski (Matrix). O filme, que teve a história atualizada e levemente modificada, mostra um herói terrorista lutando contra um governo fascista que utilizou o medo coletivo para restringir os direitos civis. O assunto também foi discutido em filmes mais politizados, como Boa Noite e Boa Sorte, dirigido pelo astro George Clooney. Ao relembrar a luta do jornalista Ed Murrow contra a “política do medo” adotada pelo senador Joseph McCarthy, no início da Guerra Fria, Clooney faz uma analogia sobre a conduta de Bush em sua “Guerra ao Terror”. É claro que o medo não foi assunto exclusivo de Hollywood e um ótimo exemplo é Caché, de Michael Haneke. O premiado cineasta austríaco faz um estudo sobre a sensação de medo ao acompanhar um casal burguês que passa a receber fitas caseiras com imagens de sua própria casa. Trata-se de uma história sobre a tensão racial/social existente na França, mas é impossível não pensar no 11 de Setembro ao vermos o casal assistir pela televisão a ameaça – assim como fez o mundo todo naquele fatídico dia.
É claro que Hollywood também aproveitaria a questão para atualizar seu estoque de vilões, já ocupado por nazistas, comunistas, vietcongues, extraterrestres e monstros. A bola da vez seriam os terroristas fundamentalistas, que poderiam ser executados sem muito constrangimento. Em O Reino (The Kingdom) a equipe do FBI liderada por Jammie Foxx e Jennifer Garner vai à Arábia Saudita investigar a morte de um membro e acaba sendo “forçada” a adotar o “olho por olho”, provocando uma chacina contra os vilões. O próprio diretor Peter Berg comentou que, durante as sessões-teste, o público vibrou com as cenas das mortes dos terroristas, mas garante que não tinha a intenção de saciar a vontade de vingança do povo americano. Fica difícil acreditar, já que uma das cenas é um close de um tiro na cabeça de um dos vilões.
O diretor Jeffrey Nachmanoff até tenta mostrar as motivações e o lado humano dos terroristas em O Traidor (Traitor), só que, quando o filme acaba, o espectador percebe que o único muçulmano confiável é um norte-americano interpretado por Don Cheadle. Rede de Mentiras (Body of Lies), de Ridley Scott, também faz uma suposta crítica ao governo Bush ao mostrar, já no início do filme, agentes da CIA torturando um prisioneiro. No entanto, apesar de cruel, a cena é rápida, não dura mais do que alguns segundos e é sem gritos, já que o prisioneiro está amordaçado. Por outro lado, quando o personagem de DiCaprio é submetido à tortura pelos terroristas, vemos cada martelada desferida, seus dedos quebrados e o sangue escorrendo. Ouvimos seus gritos e sentimos a barbárie da tortura – e o espectador fica aliviado quando a cavalaria chega.
São filmes que, ainda que não intencionalmente, acabam refletindo a visão da Casa Branca e sua “Guerra ao Terror”. Até mesmo Oliver Stone caiu na armadilha com seu Torres Gêmeas (World Trade Center). No lugar de um longa-metragem político, o nova-iorquino Stone entregou um filme extremamente piegas sobre a história real dos bombeiros que ficaram sob os escombros do WTC. O cineasta que ganhou uma medalha de honra por lutar no Vietnã e com três filmes sobre o assunto no currículo estranhamente dá voz ao personagem interpretado por Michael Shannon, um ex-militar que acreditava estar numa missão divina e decide ir ao Marco Zero ajudar no resgate das vítimas – num dado momento, ele diz “Alguém tem que pagar por isso”. Vale lembrar que, em 2004, Stone havia realizado “Alexandre”, biografia sobre o rei macedônico que saiu do Ocidente e, em nome da liberdade, conquistou nações entre as quais são hoje, ironicamente, o Afeganistão e o Iraque. Em 2008, Stone ainda produziu W., sobre George W. Bush, porém o tom foi bem menos ácido do que a história do retratado permitia.
Essa questão sobre o posicionamento político de Hollywood à esquerda ou à direita ganhou notoriedade no Oscar 2010 devido à curiosa disputa entre Avatar, de James Cameron, e Guerra ao Terror, de Katheryn Bigelow. Houve quem reduzisse a questão a uma batalha entre homem e mulher no prêmio de melhor direção, outros brincaram com a situação “ex-marido contra ex-esposa”, mas muitos encontraram uma disputa ideológica. Avatar teria um viés esquerdista e seria uma metáfora sobre a Guerra do Iraque, enquanto “Guerra ao Terror” traria uma capa direitista, com os soldados americanos como vítimas dos cruéis terroristas. Há, no entanto, quem enxergue o contrário: Cameron representaria justamente a máquina hollywoodiana, com seu orçamento astronômico (e maior renda da história), enquanto o filme de Katheryn era feito nos moldes independentes, inclusive na postura de colocar os jovens soldados como meras engrenagens da política belicista. Seja qual for a interpretação, o fato é que Guerra ao Terror deu um banho em Avatar.
O jeito é esperar a estreia do novo filme de Katheryn, sobre a caçada a Bin Laden. O roteiro já vinha sendo escrito pelo jornalista Mark Boal muito antes da operação bem-sucedida dos Seals (o grupo de elite militar que eliminou o terrorista), mas recebeu uma atualização após a morte do ex-líder da Al-Qaeda. A captura do responsável pelo 11/09 é considerada uma das maiores realizações do presidente Barack Obama e o filme de Katheryn tem estreia marcada para 12 de outubro de 2012 – um mês antes das eleições presidenciais dos Estados Unidos.

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